1º de Abril: Ditadura, fake news e a necessidade de resistência

Neste 1º de abril, data popularmente conhecida como o “Dia da Mentira”, trazemos uma reflexão sobre um problema que tem afetado diariamente a sociedade atual: a disseminação de fake news. Mais do que brincadeiras inofensivas, a propagação de notícias falsas tem sido usada como ferramenta de desinformação, manipulação e enfraquecimento da democracia. A data também nos remete a um dos episódios mais sombrios da história brasileira. Em 1º de abril de 1964, um golpe militar foi deflagrado, e a ditadura militar se consolidou oficialmente no país. Durante os 21 anos de regime autoritário, a censura e a desinformação foram utilizadas para controlar a narrativa e silenciar opositores. Notícias manipuladas e distorcidas eram espalhadas para justificar perseguições, torturas e a supressão de direitos fundamentais. Se antes a ditadura militar utilizava a censura para esconder a verdade, hoje as fake news se tornaram instrumento para desinformar e confundir a sociedade. As redes sociais e os meios digitais, embora tenham democratizado o acesso à informação, também facilitaram a disseminação de notícias falsas, muitas vezes impulsionadas por interesses políticos e econômicos. O PROIFES-Federação reafirma seu posicionamento contra a desinformação. A Federação rejeita qualquer narrativa que tente minimizar os crimes cometidos durante a ditadura militar e alerta para os perigos da propagação de fake news que buscam reescrever a história e atacar as instituições democráticas. Um dos compromissos do PROIFES é com a educação, a ciência e a informação responsável, pilares fundamentais para um país verdadeiramente democrático.
Golpe de 1964: após seis décadas, luta pela democracia ainda é crucial

Golpe completa 61 anos neste 1° de abril. Momento é emblemático já que STF tornou réus Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe. CUT realizará seminário sobre o tema nesta terça-feira Pela primeira vez na história do Brasil militares serão julgados pela Justiça civil pela tentativa de um golpe de Estado no país. O fato correu como notícia no Brasil na semana passada após o Supremo Tribunal Federal (STF) acatar as denúncias contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete aliados, tornando todos réus em um processo penal que pode levá-los à prisão. O momento em que essa decisão aconteceu foi emblemático por ter sido às vésperas de uma data que a democracia gostaria que não tivesse a memória e o peso que carrega, mas não pode esquecer, de forma alguma. No dia 1° de Abril, o golpe militar de 1964, que mergulhou o país em um período obscuro e violento de repressão à liberdade por 21 anos, completa 61 anos. Os golpistas atuais militam e se articulam no Congresso Nacional por uma anistia às penas e à responsabilidade pelos atos de 8 de janeiro de 2023, em que os prédios dos três poderes na capital federal, Brasília, foram depredados por apoiadores do ex-presidente. Mas, anistia, é uma ação que a sociedade democrática do país, hoje, não aceita. Para reforçar o coro “sem anistia para golpista” e relembrar o golpe de 1964 – para que golpes nunca mais aconteçam – a CUT realizará em sua sede, nesta terça-feira, 1° de abril, o debate “A Questão Militar no Governo Lula”, com a presença dos autores dos artigos sobre o tema nos dois livros “Democracia e Direitos Humanos no Brasil: a ofensiva das direitas” publicados pela CUT em 2021 e 2022. São eles, os professores Ana Penido, Marcelo Buzetto, Valter Pomar, Suzeley Kalil e o jornalista Breno Altman, que falarão sobre os desafios para a democratização das Forças Armadas. O evento será transmitido ao vivo pelas redes sociais da CUT (Youtube e Facebook), a partir das 14 horas. Medo e repressão De 1964 a 1985, o Brasil viveu sob governos militares que impuseram um regime autoritário com repressão política, assassinatos, perseguições e aniquilamento de organizações da classe trabalhadora. Sucederam-se cinco governos sob o comando de generais, que resultaram também em processos de corrupção, dependência econômica e crescimento da dívida externa. Passadas mais de seis décadas, o golpe militar de 1964 ainda é um assunto que não se tornou apenas ‘parte’ da história do país. O fantasma da volta de repressão tem sido exorcizado com veemência pelas instâncias máximas da Justiça brasileira. Durante os quatros anos de governo Bolsonaro e, mesmo após a sua derrota, o extremismo ideológico do bolsonarismo fez se manter vivo. De um lado a lembrança daquele tempo sombrio e violento, como forma de resistência para que nunca mais aconteça e, de outro, o criminoso clamor da direita fascista no país para que, durante o governo do ex-presidente e após sua derrota, os militares tomassem o poder de assalto, novamente. Lembrar 1964 e o golpe é manter viva a chama de resistência da democracia. Durante o período não havia liberdade de organização e expressão, sindicatos eram invadidos, sofriam intervenções, diretorias eram cassadas, trabalhadores e trabalhadoras sofriam perseguições, havia prisões arbitrárias e tudo em um cardápio que incluía torturas e assassinatos. Nos 21 anos de ditadura, até 1985, os trabalhadores e trabalhadoras foram as principais vítimas, como mostraram as investigações da Comissão Nacional da Verdade. Mesmo em meio ao desmantelamento das organizações e de intensa repressão dentro das fábricas e do setor público houve as heroicas greves de Contagem (MG) e Osasco (SP), em 1968 e, depois, as grandes greves que iniciaram o processo de derrota da ditadura entre 1978 e 1981 e que impulsionaram o surgimento da CUT. A história da CUT faz parte da luta pela democracia no Brasil, desde sua fundação, em 1983, durante o período do regime de exceção, com a classe trabalhadora mostrando sua força, sua organização como forma de resistência e reação à ditadura militar. E foi um dos pilares da redemocratização do país. A data correta do golpe Apesar de o fato ter se consumado no dia 1° de abril, com a deposição do então presidente João Goulart, o ‘golpe de 64’ teve início na noite do 31 de março daquele ano, quando tropas do Exército Brasileiro saíram de Minas Gerais e invadiram o Rio de Janeiro, ‘inaugurando’ o período da ditadura militar. “Sabendo que o dia 1° de abril é popularmente conhecido como o ‘dia da mentira’, os militares deram início ao golpe no dia 31 de março para que a data não lhes causasse nenhum constrangimento ou humilhação. Eles temiam a ridicularização da situação. Por isso, sempre se referem ao golpe como uma ‘contrarrevolução’ que teve se deu no dia 31 de março”, explica o professor de História e Geografia e ex-diretor-executivo da CUT, Júlio Turra. Turra explica ainda que que foi na noite do dia 31, pouco antes de se iniciar a madrugada do dia 1° que as tropas começaram a se movimentar em direção ao Rio de Janeiro. “Elas deixaram Juiz de Fora por volta das 11h da noite para pôr em prática o golpe”, pontua o professor.
A sombra das catacumbas – de 1964 a 2025 o que a história nos alerta

Por Romualdo Pessoa O dia 31 de março de 1964 inaugurou um período sombrio e nefasto da história brasileira. Naquela terça-feira, militares se deslocaram de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, com tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho, e em 1º de abril deram início a deposição do presidente João Goularte do governo legítimo brasileiro. Com o apoio de setores do empresariado e da ala mais conservadora da sociedade, se instalaram no Palácio do Planalto. De lá só saíram após 21 anos, depois de muitas violências cometidas contra quem ousou lutar e resistir, subjugando, a partir daí, o povo brasileiro, a uma ditadura cruel. Era tempo de Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputavam palmo a palmo sua influência no mundo. Nesse contexto, os estadunidenses não pestanejaram em apoiar e financiar golpes militares em toda a América Latina, e o Brasil não ficou de fora. Com apoio financeiro e logístico do governo dos EUA, a ditadura militar afundou nosso país nas trevas da censura, da tortura, do exílio, da morte, dos desaparecimentos e da mentira. Felizmente, nosso país conseguiu superar esse martírio e perversão militar. No dia 15 de março, completamos 40 anos de democracia ininterrupta, algo inédito na nossa história. Mas esse caminho não foi tranquilo. Muitos solavancos e retrocessos marcaram essas quatro décadas. Nova tentativa A ascensão de Bolsonaro ao poder em 2018, sem sombra de dúvidas, foi um desses revezes. Ele teve o caminho pavimentado pelo impeachment ilegal, considerado por analistas como um golpe parlamentar-judicial, que destituiu Dilma Rousseff e possibilitou a ascensão da extrema-direita ao Poder. Militar reformado e saudoso dos anos de chumbo, Bolsonaro subiu a rampa junto com militares,saudosistas da ditadura, negacionistas da ciência e das mudanças climáticas, fanáticos religiosos, neo-nazistas e fascistas. Bolsonaro nunca escondeu sua vocação golpista, muito pelo contrário. Em diversos momentos atacou a democracia abertamente. Em outros, tramou contra ela por debaixo dos panos, esquema que foi revelado e que o tornou réu por tentativa de golpe de estado na última quarta-feira (26). Sua tentativa de permanecer no poder à força envolveu militares do alto comando e desaguou nos ataques de 8 de janeiro. Naquele momento, o estado democrático de direito ficou por um fio. Não fosse a rápida resposta do Estado brasileiro, poderíamos estar em um cenário bastante diferente hoje. Agora, Bolsonaro está no banco dos réus. As instituições republicanas brasileiras, até o momento, têm mostrado que não tolerarão novos arroubos golpistas. Enquanto seu filho e aliados políticos viajam para os EUA em busca de apoio internacional para que ele consiga voltar ao poder, Bolsonaro repete o mantra da “anistia para pacificar o país”. Vivemos um momento complexo no nosso país, como em outros períodos históricos. Se fraquejarmos, podemos dar sobrevida a uma sanha golpista que não mede esforços para voltar ao Poder e lá permanecer, fomentando o horror repressivo ditatorial. Precisamos reforçar junto ao povo brasileiro o sentimento de “nojo da ditadura”, tal qual expressou Ulysses Guimarães quando promulgou a Constituição democrática em 1988. E mostrar a todos aqueles que tramam contra o Brasil que os 40 anos de democracia nos fortaleceram. Não podemos nos esquecer de 31 de março e do 1º de abril de 1964. A ditadura militar levou vidas de lutadores e lutadoras que defendiam a democracia. A lição que deve permanecer é que o preço pela falta da democracia é pago com vidas, subjugação, repressão, falta de liberdades políticas e muita desigualdade social. Está na hora de superarmos essa sombra golpista, para que possamos vislumbrar uma sociedade mais justa socialmente e um futuro democrático e soberano. Romualdo Pessoa é professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Historiador, Doutor em Geopolítica e Diretor Financeiro do Adufg-Sindicato Fonte: ADUFG Sindicato